A utilização do acesso radial para diagnóstico em cinecoronariografia foi apresentado por Lucien Campeau, em 1989, quando ele apresentou os resultados em 100 pacientes, utilizando cateteres 5Fr.
Àquela época, houve 12 falências de acesso e 1% de oclusão da artéria radial. Seu principal objetivo era avaliar a possibilidade de uma via de acesso mais confortável aos pacientes, propiciando deambulação precoce, associada a maior segurança, oferecendo menores complicações de acesso.
Em seus primeiros comunicados, enfatizava a ausência de estruturas nobres( nervos e veias) em torno da artéria radial, que poderia ser facilmente comprimida sobre o osso Rádio. Destaca-se que não houve qualquer sangramento maior neste primeiro relato de casos.
Logo em seguida, em Agosto de 1992, o Dr. Ferdinand Kiemenej realizou a primeira angioplastia coronária por via Radial, no Onze Lieve Vrouwe Gasthuis (OLVG) em Amsterdam.
Essa inovação ganhou mais interesse pela comunidade médica porque, aqui, os benefícios da segurança, menores complicações de acesso, pareciam mais interessantes que aqueles apresentados por Campeau, em exames diagnósticos.
O Dr. Kiemenej logo publicou o estudo ACCESS, em que randomizou 900 pacientes para acesso radial, braquial ou femoral, um terço para cada braço. Este estudo inicial, em pacientes eletivos e estáveis, mostrou maior falência de acesso radial, mas significativa redução de complicações de acesso através do acesso radial.
A segunda metade da década de noventa foi rica em estudos que comparavam o acesso radial ao femoral, avaliando, progressivamente, mais pacientes instáveis, como síndromes coronárias agudas, com ou sem supra de ST, idosos e anatomias complexas. Esse mesmo período foi testemunha de grande incremento do sucesso das intervenções coronárias percutâneas, especialmente por acrescentar à terapêutica adjunta potentes anti-plaquetários e diferentes anti-coagulantes, como heparinas de baixo peso molecular, Bivalirudina, Plasugrel e, recentemente, o Ticagrelor.
O grupo coordenador dos estudos ISAR lançou atenção para a importância do sangramento peri-procedimento como preditor independente de mortalidade em um mês e um ano. Analisando seus dados, sugeriu a incorporação do conceito do “quadruplo end point” ao valorizar o sangramento peri-procedimento com o mesmo peso que o infarto peri-procedimento.
Ao longo dos estudos sobre as respectivas moléculas antiplaquetárias ou anti-coagulantes, como o Synergy, o Replace, o HORIZONS, o TRITON, e outros registros, como o MORTAL, o impacto do sangramento peri-procedimento ganhou destaque. Alguns desses estudos, como o Synergy e o MORTAL, avaliaram, especificamente, o impacto do acesso Radial sobre o sangramento e mortalidade. Em todos, observou-se redução de cerca de 50% dos sangramentos e necessidade de transfusão. No registro MORTAL, esses achados se correlacionaram com redução de até 36% e 17% da mortalidade em um mês e um ano, respectivamente.
A evolução do conhecimento sobre a interação do acesso Radial e as diferentes síndromes clínicas trouxe substrato robusto para a sua adoção, que foi percebida primeiramente na Europa e Japão, seguida pelas demais regiões do globo.
O estudo ACUITY mostrou que em países como Noruega e França o acesso radial foi predominante em mais de 82% dos pacientes; Dinamarca, Finlândia, Reino Unido e Suécia, entre 20 e 35%; Itália, Canadá e Espanha, entre 10% e 20%; enquanto que os EUA, utilizaram acesso radial em cerca de 1,5%.
No Brasil, estima-se emprego de acesso radial entre 25% e 30% dos procedimentos, atualmente.
Em meta-análise de 12 estudos randomizados, comparando acesso radial ao femoral em 2234 pacientes, publicada por Agostini em 2004 no JACC, o autor destaca crescente redução da curva de aprendizado, evidenciada por equiparação das duas vias de acesso quanto à falência do acesso. Os trabalhos mais recentes dessa meta-análise mostram que os novos materiais, assim como maior experiência dos operadores têm transformado essa tendência. Atualmente, não há diferenças quanto ao sucesso do acesso, mas sim, significativa redução das complicações de acesso promovidas pela via Radial.
Agora, após 18 anos de experiência global com intervenção por via Radial, tem havido crescimento homogênio entre os diferentes países, com a criação de programas específicos para o treinamento, inclusive, nos EUA, onde a resistência parecia maior que nas demais regiões do globo.
